Quinta-feira, 26 de Julho de 2007

Curia


Afonso Simões, David maranha, Manuel Mota e Margarida Garcia

CD, 2007 ed. Fire Museum (USA) FM15

"Fire Museum Records presents the eponymous debut release by the Portuguese molten music masters, Curia. Forged in the fertile grounds of the Lisbon music underground, each member an established musician in their own right, what each brings to the new project is a commitment to sonic exploration that builds on their individual histories while creating a collective identity that is uniquely Curia. The alchemy here is stunning, as bowed and wah guitars, Hammond organ and percussion intertwine and fade out to create a soundscape that is not only unique, but a high point for the fascinating Portuguese experimental music scene (Special guest on track 3: Helena Espvall). David Maranha: started his work in music in 1986, both solo and with the group Osso Exótico. Manuel Mota: from the late '80s to 1997 studied and experimented with prepared guitar (mainly acoustic) and focused his work on drone music; influenced by Phill Niblock and La Monte Young. Margarida Garcia: Margarida collaborates regularly with Manuel Mota. Afonso Simões: he has performed with the likes of Mayo Thompson, Rafael Toral, Helena Espvall, and Mean Motion."
Steven Tobin, press release

Always providing for space for each other while still bringing the heat poignantly, the members of the Curia manage to walk that fine line between under and over playing, with deliberate indulgence, creating a scape as odd and alien that is difficult to box. With various outstanding personal works, the members of curia, Afonso Simões, David Maranha, Manuel Mota and Margarida Garcia, share a common ground- the lisbon´s underground- but each has a very personal history and their music clearly reflects that - everyone there feels free to play whatever they like but the result has an unique character even being free from style barriers. Together they shaped a space of continuity and at the same time re-write the territory of their approach to music. Formed in February of 2007, their sound comes through the layering and gathering of each individual's unique personal language. These cat's work also fruited in two releases in the same year, namely the eponymous curia CD on Fire Museum Records and LP curia II on Ruby Red Records.


Curia could be one of those bands coined with that horrible definition of "supergroup".
Curia´s line-up consists of an all-star quartet of portugal best players in the fields of improvised and free music, including of Manuel Mota, David Maranha (also Osso Exótico and Organ Eye), Margarida Garcia and Afonso Simões (half of the free-rock group Fish & Sheep). Furthermore there´s Helena Espvall ( from the band Espers ) making a punctual apparition as a guest .

There´s not one linear definition of what this music might be : only a sense of urge and dialogue that transcends the mundane ground. Having not found a proper definition to describe this music one should focus on what really matters, and that is sound. It´s a music of ghosts, of evocation, constantly habited with a swirling and often perverse sense of crescendo, going from some really abrasive sonic explorations to atmospheric passages of pure psychedelia. The words "form" and "regularity" have new meanings in Curia´s lexical, still one can´t deny there´s a kind cohesion , a clearly noticeable guideline that runs trough all the music.

What could easily turn into a battles of egos is instead a statement of freedom, mutual respect and creativity.
Here as the cliché goes the whole is not equal to the sum of the parts. No. Here the whole it´s something dazzling and new.
O Bom Garfo


Min kännedom om portugisisk musik har under lång tid inte sträckt sig mycket längre än till minimalisten Rafael Toral. Under senare år har dock en våg av underjordisk aktivitet fullkomligt sköljt ut över världen på såväl små inhemska bolag som utländska dito. Även om det här är Curias debutskiva är bandets medlemmar i allra högsta grad delaktiga i denna utveckling då de såväl solo som i andra konstellationer har bidragit till scenens vitalitet och goda renommé.

David Maranha, Manuel Mota, Margarida Garcia och Afonso Simões skapar som Curia en sorts genreöverskridande improvisationer som på det stora hela är lågmälda i sitt uttryck men som likväl är förhållandevis svårforcerade. Bearbetade gitarrljud, genomskärande övertoner och bisarra bakgrundsljud möter släpande orgelfigurer och fragmentarisk percussion i en helhet som är krävande men också synnerligen givande. Kanske inte på det där omedelbara sättet utan snarare en känsla som kommer smygande ju mer man tar sig tid att stanna upp och fascineras av alla detaljer och den komplexitet som karaktäriserar denna kvartetts musicerande.

Mats Gustafsson
Sound of Music

Tirando partido da imobilidade da sua plateia, alguém tentava convencer os especados diante de um televisor de que dado território era um deserto. Como quem ensaia um ritual de hipnose, esse alguém gesticulava e repetia sem, sem, sem emparelhando a palavra com cada um dos elementos (casas, hotéis, etc.) que deviam preencher tal área para que não fosse um ermo onde nada se passa. A crer que é longa a distância entre o suposto deserto e quem apenas ouvir falar acerca do mesmo, não será de todo surpreendente dar conta de que alguns receptores passivos da mensagem possam, na necessidade de ter uma qualquer opinião em vez de nenhuma, consentir que o lugar em questão era, de facto, um vácuo, e isto sem nunca o terem sequer farejado.

Não se conhece a mesma tendência manhosa e ludibriante ao colectivo Curia, cujos integrantes já vão dispensando apresentações, mas confirma-se que também este seu primeiro disco é feito sem evidentes crescendos ou decrescendos, sem aparente necessidade de virtuosismos, sem estruturas imediatamente reconhecíveis nos seus quatro movimentos (é livre, sem ser promíscuo). Conforme as perspectivas, dir-se-ia sobre o trabalho lançado pela Fire Museum que o mesmo obedece às premissas de um protótipo de deserto ou, a partir de um ângulo mais construtivo, à disciplina da música que faz categórico uso da elipse e silêncio. Acontece que, mesmo sem largar ao ar um espectáculo de pirotecnia, Curia consegue arrancar reacções de pasmo por meio do avultado número de fenómenos que produzem, por aproximação (na eminência da fricção), os quatro elementos armazenados em sarcófagos separados: a bateria e percussão de Afonso Simões, o calejado órgão Hammond de David Maranha, a guitarra eléctrica wah de Manuel Mota e a guitarra eléctrica tocada com arco por Margarida Garcia (sendo o violoncelo de Helena Espvall, parte dos Espers, o quinto elemento convidado para valiosa participação pontual).

Sendo também por si só um novo mundo paralelo, Curia, ergue-se naturalmente sobre estratos que frisam as capacidades dos executantes, em vez de anulá-las por batalha de sobrevivência entre egos. Em certa medida, é disco onde a peregrinação dos instrumentos favorece um acompanhamento igualmente peregrino de quem escuta (mais abençoado, se movido por uma fé cega). Singra também enquanto conjunto de testemunhos registados no epicentro exacto de um diversificado sismo conspirado por quatro células que simularam um adormecimento faquir, mas que sorrateiramente foram palmilhando toda a dimensão dos seus respectivos espectros sonoros e, por arrasto, a avultada quantidade de recursos que esses oferecem, mais nitidamente quando respeitada a peculiar logística Curia.

Afinal, a progressão dos Curia desenvolve-se um pouco como a que separava Indiana Jones do Santo Graal n’A Grande Cruzada: sucede-se atenta ao soletrar pedonal das coordenadas que os seus membros têm como religiosas (tal como Indy tentava a palavra Jeová/Iehova) e manifesta-se mais repleta de ideias espontâneas quando sente o seu equilíbrio ameaçado (um pouco como o aventureiro, quando pisava em falso). Curia é disco de revelações a ter por perto daqui em diante. A estagnação é a doença, eles são a Curia.

Miguel Arsénio
bodyspace 08/01/2008

A música experimental portuguesa continua a dar cartas. Lá fora, cá dentro, em registo discográfico ou ao vivo. Não há grandes mistérios por trás deste facto. Apenas a qualidade do trabalho de uma série razoável de artistas que, de forma natural e teimosa, se limitam a tocar música. David Maranha, Manuel Mota, Margarida Garcia e Afonso Simões fazem parte desse conjunto mais ou menos informal, mas quem, de facto, quiser confirmar esta asserção não deve perder o concerto que os reúne no Maxime, sob a forma do quarteto baptizado com o nome de Curia.

O mote é a apresentação do homónimo disco de estreia (com a edição portuguesa da Ruby Red e nos Estados Unidos pela Fire Museum Records) e vale, definitivamente, a deslocação. Os quatro temas de Curia são um encontro fantástico de timbres, ritmos, frases, ruídos e pausas que insinuam conversas com as histórias e as linguagens do jazz, do rock, do blues e da música improvisada, sem que umas se imponham às outras. Mais: sugere uma dimensão alucinatória que confunde sentidos.

Da guitarra wah de Manuel Mota até ao teclado Hammond de David Maranha (dos Osso Exótico), passando pela bateria de Afonso Simões (dos Phoebus), cada instrumento tem tal força expressiva que deixa ouvir, aqui e ali, a presença de uma voz. Mas isto é o disco. Já o concerto, para lá das histórias e dos delírios sonoros que proporcionará, assinala também o encontro de músicos de diferentes tempos e gerações (Manuel Mota e Margarida Garcia surgiram nos anos 1990, Afonso Martins nesta década e David Maranha há cerca de 20 anos).

Comunicação, portanto. E comunhão. Eis um concerto dos Curia. Na primeira parte actua um duo formado por Barry Weisblat e Patrícia Machás.

José Marmeleira
Time Out, 8 de Janeiro de 2008

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